A Comissão Especializada de Finanças e Orçamento da Assembleia Nacional reuniu-se para proceder à audição do Presidente do Tribunal de Contas, João da Cruz Silva, no âmbito da apreciação da Conta Geral do Estado referente ao exercício económico de 2023.
Durante
a audição, um dos pontos suscitados prendeu-se com o facto de a Conta Geral do
Estado de 2023 estar a ser apreciada apenas em 2026. Em resposta, o Presidente
do Tribunal de Contas esclareceu que, apesar da apresentação ocorrer neste
momento, o respetivo parecer foi entregue dentro dos prazos legalmente
estabelecidos pela Lei de Bases do Orçamento do Estado. João da Cruz Silva
adiantou ainda que o parecer relativo à Conta Geral do Estado de 2024 deverá
ser submetido ainda no decurso do presente ano.
O
responsável destacou diversos aspetos positivos constantes do parecer,
nomeadamente o aumento significativo das receitas públicas nos últimos três
anos. Segundo dados apresentados, em 2021 foram arrecadados cerca de 45 mil
milhões de escudos, em 2022 o valor ascendeu a 55 mil milhões e, em 2023,
atingiu os 66 mil milhões de escudos. Salientou igualmente que a execução da
receita rondou os 98% do previsto, classificando-a como bastante positiva,
enquanto a execução da despesa situou-se em torno de 72%.
Relativamente
aos subsídios e benefícios fiscais, João da Cruz Silva sublinhou que tem havido
um esforço no sentido de reforçar a transparência, adiantando que a Conta Geral
do Estado de 2024 vai identificar expressamente as entidades beneficiárias
desses incentivos fiscais. Reiterou ainda a necessidade de se arrecadar mais
receitas e de assegurar maior rigor e transparência na prestação de contas
públicas.
No
capítulo das recomendações constantes do parecer, o Presidente do Tribunal de
Contas destacou a necessidade de plena concretização do princípio da unicidade
de caixa, que, segundo afirmou, ainda não se encontra totalmente implementado.
Referiu igualmente recomendações relacionadas com o património do Estado, em
particular a regulamentação do inventário patrimonial, bem como aspetos ligados
à tesouraria do Estado, onde apontou a falta de regulamentação das condições de
funcionamento das operações de tesouraria.
Em
contraposição, a deputada do PAICV, Adélsia Almeida alertou para o aumento da
dívida pública, atribuindo-o à “falta de visão real acerca da divida publica do
país, incluindo as dividas dos municípios e do poder central, o que preocupa
muito”. De acordo com a deputada do PAICV, constata-se que “o Governo recorre
constantemente a banca nacional, aumentando a divida interna e afetando os
empresários nacionais que recorrem ao financiamento bancário”. A deputada
abordou também a questão da bancarização, referindo tratar-se de um processo
iniciado “com a Governação do PAICV, mas passado 10 anos, o atual Governo não
tem conseguido concluí-lo”.
Adélsia
Almeida manifestou preocupação com o aumento das dividas das entidades publicas
ao Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), considerando a situação
“preocupante”, uma vez que “o Estado tem a obrigação de repassar os fundos
retirados dos salários dos funcionários”. Na sua perspetiva, a não
transferência desses valores ao INPS configura uma “situação de ilegalidade”, defendendo
o reforço do enquadramento legal para obrigar as entidades a cumprirem essa
obrigação.
Outro
aspeto salientado pela deputada é a “não materialização” do fundo, previsto na
lei, para apoiar as vítimas da Violência Baseada no Género. Concluiu referindo
que, apesar de se registar uma melhoria nos prazos de apresentação das contas,
ainda são necessários avanços adicionais para que, no futuro, as contas
públicas possam ser analisadas em tempo real.
Por
sua vez, o deputado do MpD, Luís Carlos Silva, considerou que, apesar do atraso
na apresentação do parecer, a situação tem vindo a melhorar, recordando que, em
períodos anteriores, chegaram a existir cerca de dez contas em atraso. Para o
deputado, as melhorias são evidentes, faltando apenas a apreciação da Conta
Geral do Estado de 2024 para que o país fique totalmente em dia no que respeita
à prestação de contas.
Luís
Carlos Silva afirmou que o “momento é para sinalizarmos a transparência, a
prestação de contas e particularmente, a integridade na gestão das coisas
publicas”. Complementou que os pareceres do Tribunal de contas são documentos
robustos e técnicos, “que transpiram a qualidade da gestão pública”.
Não
obstante, reconheceu a existência de aspetos a melhorar, sublinhando, contudo,
que “o relatório mão tem nada de anormal, nada de grave ou que configure crime”.
Relativamente
ao INPS, o deputado do MpD reconheceu tratar-se de uma matéria sensível e
preocupante, que merece atenção continuada, adiantando que a questão já foi
sinalizada e que se encontra em processo de melhoria gradual.