No cerne do recente Debate sobre o Estado da Nação, realizado na Assembleia Nacional, emergem questões cruciais que definem o panorama sociopolítico e económico de Cabo Verde. O primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva destacou o incremento do Estado Social, qualificando-o como o maior jamais verificado no país. Enfatizou um conjunto abrangente de medidas destinadas à melhoria da qualidade de vida dos cabo-verdianos: o aumento das pensões para idosos, a reabilitação e construção de habitações sociais, políticas específicas para jovens universitários, como bolsas de estudo e ampliação das vagas nas residências universitárias, bem como o aumento do salário mínimo nacional. Tal quadro traduz um esforço continuado do Executivo para proteger os mais carenciados e promover a inclusão social num contexto de persistentes desafios.
Entretanto, a discussão política revela-se permeada por dinâmicas de polarização e contestação. Ulisses Correia e Silva sublinhou o papel nefasto do populismo no debate público, ao denunciar práticas que apostam na descrença em relação ao progresso alcançado, promovendo um clima de caos e desinformação desprovido de fundamentos reais. Segundo o chefe do Governo, esta corrente populista visa criar perceções distorcidas da realidade, instigando sentimentos de insatisfação artificialmente construídos, e que põem em causa a credibilidade do Estado da Nação e das suas políticas sociais e económicas.
Em contrapartida, a deputada Janira Hopffer Almada, do PAICV, trouxe ao foco a realidade do desemprego e da emigração, apontando para a saída de cabo-verdianos, sobretudo jovens, em busca de melhores oportunidades fora do país. Questionou diretamente o Primeiro-Ministro sobre a aparente contradição entre os números apresentados e as filas de cidadãos que aguardam para emigrar, destacando ainda a escassez de mão-de-obra na construção civil, consequência direta da diáspora interna. Esta denúncia traduz uma inquietação legítima acerca da eficácia das políticas de emprego e do combate à exclusão económica no arquipélago.
O quadro que emerge destes posicionamentos é o de um Cabo Verde que enfrenta profundas tensões internas decorrentes de perceções divergentes sobre o real impacto dessas políticas na vida quotidiana dos cidadãos. A proteção social ampliada e os investimentos nas camadas vulneráveis coexistem com a sensação de insatisfação e insegurança que alimentam discursos populistas e realçam a urgência de medidas que promovam o emprego e contenham a fuga de talentos.
Em suma, o debate evidenciou a complexidade do Estado da Nação cabo-verdiana, onde o progresso social e económico convive com desafios políticos e sociais que exigem diálogo construtivo, transparência e políticas inclusivas capazes de assegurar uma coesão nacional sólida e sustentável para o futuro do país.